domingo, 10 de maio de 2015

fronteira

Na fronteira de um momento há sempre um poema preso
Que só o momento a seguir pode soltar

Mas em todos os voos deixam-se versos para trás
Alguns por não rimarem, outros por não terem asas
Outros porque morrem no pensamento

E há sempre um triste que escreve o poema
Depois de o encontrar perdido à procura de uma alma
Não deixando que ele voe mais.

Há falta de almas que não escrevam
Há falta de infinito. 


domingo, 26 de outubro de 2014

Era só uma vez

No surgimento de uma tarde,
Há sempre uma manhã
Que não acabou!
Tragam-me outro dia nesta tarde
Outro discurso
Outro poema
Outra canção!
E tragam-me a Maria,
O Manuel, a Susana,
O Mário, a Catarina,
Tragam todos,
Não têm de rimar!
Juntos, criem uma tarde
Que não traga uma manhã!
Uma história que comece
Numa vez que era mas não foi.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

nódoas

Há dias que não chegam a terminar
E que dormem connosco
Num conflito de paz e inquietação
Exigindo durar mais tempo!

Todos nós somos infelizes por dentro em algum lugar
Quer seja pequeno e maciço,
Ou grande e disperso!
E todos nós temos dias vividos
Que viverão mais anos e anos!

Que sejam muitos?
Não sei!
Mas que haja tempo
Para criar lugares felizes,
Quer sejam pequenos e maciços,
Ou grandes e dispersos,
Desde que em muita quantidade!

terça-feira, 3 de junho de 2014

comprime

noite de dia inacabado,
língua remexida, seca,
neurónios doentes de maquinizar,
o que já sabem fazer
mas às vezes não se lembram

águias por todo o lado
voam, levemente, e ferem
ferem e magoam e doem
as aves mais belas e límpidas
que não mentem

nada como estar entretida
com uma canção qualquer
que surgiu após a minha preferida!
não há nada a perder,
cidadãos deste mundo,
não há nada a perder!
mas irão sempre haver
aqueles artistas
que só têm uma canção
e aquelas pessoas
que só têm um momento
um olhar
uma palavra
um beijo
que será eternamente
o nosso preferido

tudo é perfeito
quando não se dilata
a sua perfeição

há muito a perder,
cidadãos deste mundo,
tudo se perde!

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Do momento

Continua!
Não há lugar certo, homem,
Não há lugar certo!
Continua que amanhã tens de viver
E abraçar a nudez da noite
que ainda não viste
nem nunca verás

Irmão, não há lugar certo!
Continua que amanhã tens de sentir
O mesmo conto sem pontos
A mesma saudade por perto
Que nunca te tocará!

Continua,
Que amanhã o destino será o mesmo
(o destino é sempre o mesmo
depois de alcançado)
Mas verás mais umas curvas,
Uns viadutos, umas portagens
E irás parar cansado,
À procura de um café
De um "boa noite, o que deseja?"
E, quando te sentares
A ler o jornal inútil que saiu de manhã
Por instantes, aquele lugar parecerá o certo!

sábado, 17 de maio de 2014

A segunda trinca de Adão

Esta manhã acordei a horas desapropriadas,
Rebolando na minha cama vazia!

O perfume era de alfazema,
As curvas confortáveis
Deslizavam sobre o colchão ortopédico!
Vida adormecida, sem lema,
Coração partido, amor periférico!
Nada é tão belo como o escuro,
As persianas semiabertas,
O amanhecer inseguro,
Visto por baixo das cobertas,
Que a mamã não esqueceu!
Não sou mulher de adormecer ao relento,
Mas jamais acordarei protegida,
Depois de ser levada pelo vento,
Que a madrugada alcoolizou!

Sou a deusa que o perigo nunca teve,
Ouso da minha inocência,
Fatalmente doce, natural
E tão consciente!

Não vais querer cair na minha indefinição,
Na minha mente espessa, no meu corpo são!

Sou a maça que Adão não trincou
E a Eva que o fará saborear o resto da maçã,
No dia em que o equilíbrio explodir
E a balança pesar o mesmo para os dois lados.

Não sei o que há-de vir!
As deusas nunca sabem o futuro,
Nada se fará realidade depois de pensado
E Adão e Eva nunca existiram.
Mas eu, perigo disfarçado,
Creio no que não vi,
Quando o sinto ao meu lado,
Nesta cama vazia,
Que será também de Adão,
Esse que não existiu,
Um dia!

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A lua engradeceu na noite em que se deitou ao meu lado!
Somos sempre maiores quando deixamos um céu de estrelas
Para cair ao lado de uma só voz!