terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Carrego um armário de coisas
Apenas porque
(literalmente e iliteralmente)
Não me quero arrepender de deitar um vestido ao lixo
Quando encontrar os sapatos perfeitos para ele!

domingo, 16 de fevereiro de 2014

ParadoxalMente

as palavras são demasiado curtas
para dias tão compridos
e, mesmo assim,
tudo o que faz a diferença
ficou por dizer
ou achamos que dissemos
por outras palavras

enigmática esta arte
de dizer o que não se disse
por outra maneira de o dizer

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Eles acham que se vingam em falar mal
E que me magoam com palavras que não ouço
Mas que pairam no ar e estragam a minha memória!
Eles acham que eu sofro por não estar lá
E por não me poder defender dos dentes mal lavados,
Dizendo que não disse que disse,
Ou que disse o que não disse ou disse e nem me lembro!
Acreditam que mesmo sem puder ver nem ouvir
Sinto as más energias que depositam no meu nome
E choro tempestades noturnas,
Com a esperança de acordar alguém
Ou entrar nos sonhos de um pobre inocente!
Eles acham que não aguento o peso do arrependimento,
E que daria tudo por uns segundos extra
Em que me ajoelharia perante eles, suplicando perdão.
Eles acham tudo o que queriam que fosse
Mas não sabem o que é a morte!
Não sabem que estou lá em cima, no paraíso,
Um lugar onde tudo é eternamente novo!

Eles é tão distante e pequeno,
Que não dói.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Auto-Adversário

O problema é que a sociedade e a vida são justas demais
E todos se esquecem que ninguém vence a Natureza
Mesmo que os dias sejam tristes e as águas paradas

A batalha mais difícil é sempre aquela que criamos com nós mesmos
Porque a guerra que declaramos aos outros
Mesmo que perdida

Nunca é culpa nossa

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Esperança

Parece que o mundo vai acabar quando dizes que não em silêncio
E todas as palavras já ditas e verdadeiras
Perdem o valor quando me inundas nessa ausência negativa
Que arde mais do que fortes facadas que não quero ouvir!
Preciso da presença, da confirmação, do sim ou do não,
Preciso de ouvir o que vejo em gestos,
O que a razão já concluiu e o conselheiro já disse
Preciso de ouvir o que já sei para saber que sei!

É tão difícil acreditar tanto quanto é difícil não o fazer
O sol é sempre o mesmo, a lua tem rotina marcada,
E nada é mais belo no mundo do que acreditar na beleza
Que está para além dele!
Somos animais que vivem à procura de magia,
À procura de algo que não sabemos,
E criamos mística nas coisas que não nos satisfazem!

Há sempre um canto por completar,
O coração, repleto de sangue, parece que não bate,
O dia nunca acaba,
E só o ano passou depressa!

Impacientes, queremos que chegue o fim de semana,
Mas ficamos fartos dos domingos longos,
Dos programas de televisão sem conteúdo,
Dos filmes que vemos sem vontade!

A vida e o mundo precisam mais de nós do que das coisas,
E é por isso que questiono o porquê de depositarmos
A responsabilidade de preencher a nossa vida
Em coisas desprovidas dela.

Somos eternas crianças,
Com problemas mais embrulhados
E com equações mais compridas por resolver,
Mas o que está dentro do embrulho não muda,
E as regras de resolução são sempre as mesmas!
A arte de viver está em conseguir ultrapassar as camadas de papel
E não deixar de ver o que está dentro do embrulho,
Está em olhar para a equação,
E, com calma, moderação, confiança, entrega e clareza,
Recordar as regras que nos ensinaram na primária
E aplicá-las
Nunca esquecendo que não se resolvem equações a caneta,
E que também não serve de nada escrever a lápis,
Se não tivermos sempre connosco uma borracha.

No papel,
O corretor nunca fica bem,
E se escrevermos antes de ele secar,
O aspeto piora ainda mais
E todos nós acabamos por arrancar a folha.

É só aqui que a metáfora deixa de fazer sentido,
Afinal, na vida não pudemos arrancar folhas,
Terminar capítulos antes do tempo,
Nem deixar parágrafos por ler.
A única solução é esperar pela próxima página
Sem perder o autocontrole, a paciência e a razão:
Só assim poderemos acreditar no facto

De que a ausência injustificada pode trazer um sim!

domingo, 29 de dezembro de 2013

A cidade de Caeiro

A poesia surge quando um corpo que sente treme na corda estreita que é a vida!
Até Caeiro, que era Caeiro, escrevia com medo de deixar de ser Caeiro.
Ele tremeu. Acreditem. Ele tremeu.
Não vão na conversa do fingimento, da junção do objetivo com o subjetivo,
Não vão na conversa da fragmentação, da abstração de si mesmo,
Não vão nessa história da antimetafísica!
Que raio de homem é este que pensa sobre não pensar?
O pensar não se pensa, vive-se!
E, permitam-me esta falácia, quem não pensa, não existe!
Acreditem. Se é que existiu. Caeiro tremeu.
No meio da paz das suas ovelhas, da beleza da complexidade de uma paisagem vazia, dos verdes campos e das flores e das árvores e dessas coisas naturais absolutamente belas que os poetas não se cansam de descrever antes de dizerem alguma coisa de jeito,
Caeiro respirou a poluição, perdeu-se no trânsito, bebeu até ter de ir para casa de táxi, dançou com cara de alegria ao som de música foleira e chegou a fumar um maço por dia até vir a moda de deixar de fumar.
De uma maneira ou de outra Caeiro experienciou essa treta toda lá no meio da sua terrinha distante da civilização.
Caeiro, sim, esse grande Mestre que tanto admiro, também tremeu.
Tremeu porque, mesmo que tenhamos a mania das meteorologias, às vezes lá vem uma chuvada num dia de Agosto e as praias ficam desertas.
Tremeu porque, mesmo que não o demonstrem, os mestres também tremem
E, aliás, são os que têm mais razões para tremer.
A única diferença entre um mestre e os outros
É que o mestre treme o que for preciso
Mas nunca cai da corda
Porque aprendeu a movimentá-la a seu favor
Em vez de se deixar levar pela inércia das sensações!


Dou como fixa a minha.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Coca-cola

Eu não uso o papel e a caneta para escrever o que sinto, mas sim para limpar as impurezas que se instalam na língua e teimam em não sair. Sou uma pessoa expressionista. Sofro de um terrível desespero por me expressar e uso e desuso as palavras sem nunca as desvalorizar.
As minhas palavras são lágrimas secas. E, jamais, deixarei de chorar.
Choro pela vida, pelo amor, pela saudade, pela fome, pela vaidade,
pelas noites cheias de luz, pelos dias em que anoitece, pela dor que provoco, pela dor que me provocam, pelo vazio que tenho, pelo vazio que me oferecem.
Vivemos numa sociedade vazia.
Não digo isto por lamentar o presente e querer voltar aos supostos bons velhos tempos.
Digo-o porque ela é vazia e não tem outra forma de ser.
Digo-o porque quanto mais me integro nela mais vazia me sinto.

A sociedade é uma autêntica coca-cola: corrói, aos poucos e levemente, mas corrói e nós, indivíduos, não paramos de a beber.
Às vezes, surgem pequenos buracos nas veias, algumas espinhas na cara, mas nada que não se aguente.
O importante é haver sol, juntar a malta toda, enfardar pacotes de batata frita e, claro, nunca esquecer a coca-cola.
No entanto, há sempre aquele indivíduo que leva sumo de laranja ou de maçã, bebidas que a malta só bebe se estiver a morrer à sede e não houver coca-cola nem um supermercado à beira.
E depois há sempre um desgraçado que lá bebe sumo de maçã para não gastar coca-cola e diz que até gosta, há sempre um chico esperto que prefere o sumo de maçã à coca-cola e nem gosta de sumo de maçã ou então, neste caso nem sempre, há um inteligente que gosta mesmo de sumo de maçã e dá-se ao luxo de ficar com a embalagem só para ele.

Choro pela sociedade.
Choro e não paro de chorar lágrimas secas que teimam em não sair.
É difícil descrever o vazio. Diria, até, que se torna num caminho demasiado infinito para um ser com tempo de vida limitado se atrever a completar.

Choro por tudo aquilo que não é técnica:

Eis a minha definição de arte!